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Dor | Uma Sensação Desagradável

Atualizado: 28 de jan. de 2022



Uma das sensações somáticas que mais vezes aflige clientes, atletas e/ou pacientes é a dor. De fato, a maioria das doenças corporais causam dor e ela está presente em muitos processos inflamatórios. Na realidade, a dor tem uma finalidade muito bem definida. Trata-se de um mecanismo protetor do corpo; ocorre sempre que qualquer tecido seja lesado, e faz com que o indivíduo reaja para remover o estímulo álgico. Um exemplo disto é sentar-se por um longo período de tempo sobre o isquion. Isto pode causar destruição de tecidos, devido à ausência de fluxo sanguíneo para a pele no local da compressão, o que por sua vez faz com que a pessoa desloque inconscientemente o seu peso para outra região, fruto de um processo compensatório. Quando alguém perde a sensação álgica, como por exemplo após uma lesão medular, não percebe a dor e, portanto, não executa o movimento compensatório necessário. Isso resulta em ulceração nas áreas de pressão.



Os Tipos de Dor

A dor pode ser classificada em dois tipos principais: dor rápida e dor lenta. A dor rápida ocorre em cerca de 0,1s. Pode receber vários nomes, tais como dor em pontada, dor em picada, dor aguda, dor elétrica, entre outros. Este tipo de dor não é percebido na maioria dos tecidos profundos do corpo. A dor lenta só se inicia após 1s ou mais e aumenta lentamente durante vários segundos e, alguma vezes, até mesmo minutos. Nomes para este tipo de dor são dor tipo queimadura, dor continuada, dor nauseante e dor crónica. Geralmente, este tipo de dor está associado à destruição de tecidos. Pode ser extrema e causar um sofrimento insuportável e prolongado. Esse tipo de dor pode ocorrer tanto na pele, como em qualquer tecido ou órgão profundo.



Os Recetores da Dor e a sua Estimulação

A dor é uma sensação. Todos os recetores, na pele e noutros tecidos, são terminações nervosas livres. Os recetores da dor podem ser excitados por três tipos de estímulos (mecânicos, térmicos e químicos) pelo que a sua classificação é em função do estímulo que recebem. Apesar da sua maior tendência para responderem a um estímulo específico, a maioria da fibras sensíveis à dor pode ser excitada por múltiplos tipos de estímulos. Em geral, a dor rápida é produzida pelos recetores dos tipos mecânico e térmico, enquanto a dor lenta pode ser produzida por todos os três tipos.

Algumas substâncias químicas que excitam os recetores do tipo químico incluem: bradicinina, serotonina, histamina, iões de potássio, ácidos, acetilcolina, e enzimas proteolíticas. Para além destas, as prostaglandinas estimulam indiretamente a terminações sensíveis à dor. Estas substâncias químicas são muito importantes na estimulação da dor do tipo lenta e encontram-se frequentemente em tecidos lesionados.

Ao contrário da maioria dos outros recetores sensoriais no corpo, a adaptação dos recetores da dor ao estímulo é mínima. À medida que o estímulo continua existe um aumento da sua sensibilidade, fenómeno denominado de hiperalgesia. Esta incapacidade é importante, pois permite que a pessoa permaneça sempre alerta a um estímulo lesivo que cause dor enquanto ele persistir.



Algumas Causas Comuns de Dor

Estímulos como calor, infeção bacteriana, isquemia tecidual e contusão tecidual, estão dependentes da sua intensidade para que a pessoa percepcione dor.

Todas as substâncias químicas, citadas no ponto anterior, excitam os recetores químicos da dor, e como referimos podem ser encontradas em tecidos lesados. A bradicinina é apontada por vários investigadores como o principal agente responsável pela dor, em tecidos lesados. Contudo, a intensidade da dor percebida está relacionada com o aumento local da concentração de iões de potássio. As enzimas proteolíticas podem atacar diretamente as terminações nervosas e excitar a dor, por tornar as suas membranas mais permeáveis aos iões.

A libertação destas substâncias não só estimula os recetores químicos, como também diminui em muito o limiar para a estimulação dos recetores mecânicos e térmicos. Um exemplo típico deste fenómeno é a dor extrema causada por pequenos estímulos mecânicos ou térmicos, após uma lesão tecidual resultante de uma queimadura solar. Quando um tecido é privado de oxigénio, este fica doloroso em alguns minutos. Quanto maior for o seu metabolismo, mais rapidamente surge a dor. A acumulação de grandes quantidades de ácido láctico, em consequência do aumento do metabolismo anaeróbio, é uma das causas mais prováveis para a dor na isquemia. Contudo, os investigadores sugerem que outros agentes químicos, como a bradicinina e enzimas proteolíticas, formados devido à lesão celular, podem estar na origem da estimulação de terminações nervosas sensíveis à dor.

Por último, o espasmo muscular também pode ser uma causa de dor, sendo a base de síndromes álgicas clínicas. Possíveis efeitos do espasmo muscular, como causa da dor: efeito direto na estimulação de recetores de dor mecanossensíveis; compressão de vasos sanguíneos, que por sua vez causa isquemia; aumento do metabolismo, o que produz um incremento da isquemia relativa, criando as condições ideais para a libertação de substâncias químicas que induzem a dor.



Vias de Transmissão da Dor

As terminações livres sensíveis à dor utilizam vias separadas de transmissão de sinais da dor para o sistema nervoso central. Os sinais da dor rápida ou em pontada são transmitidos nos nervos periféricos, para a medula espinal, por fibras do tipo A δ (delgadas e pouco mielinizadas) com velocidade de 6 a 30m/s. Por outro lado, a dor lenta (crónica) é transmitida por fibras do tipo C (não-mielinizadas) com velocidades entre 0,5 e 2m/s. Devido a este duplo sistema de inervação para a dor, o súbito início de um estímulo álgico produz uma “dupla” sensação de dor: uma dor rápida (em pontada), seguida (1s depois), por uma dor lenta, tipo queimadura. A dor rápida alerta rapidamente a pessoa para a existência de algo potencialmente lesivo, o que representa um sistema de defesa muito importante ao provocar uma reação imediata da pessoa ao afastar-se do estímulo.

Os neurónios aferentes (sensitivos) responsáveis pela transmissão da dor penetram na medula espinal pela raiz dorsal, e daí deslocam-se para cima e para baixo entre um a três segmentos, terminando sobre neurónios localizados nas pontas dorsais da substância cinzenta. Entretanto, a partir daqui existem dois sistemas para o processamento dos sinais da dor: o feixe neoespinotalâmico e o feixe paleoespinotalâmico.

O feixe neoespinotalâmico é responsável pela transmissão da dor rápida. Recebe os sinais dolorosos mecânicos e térmicos, transmitindo-os para o encéfalo através de fibras do tipo A δ, rápidas. Algumas das fibras do feixe neoespinotalâmico terminam nas áreas reticulares do tronco cerebral, mas a maioria segue até ao tálamo. A partir daí são transmitidas para outras áreas basais do cérebro e para o córtex sensorial somático. Por essa razão a dor rápida pode ser localizada com maior precisão do que a dor lenta.

O feixe paleoespinotalâmico é um sistema muito mais primitivo, transmite os sinais da dor maioritariamente através de fibras do tipo C, embora transmita alguns sinais pelas fibras do tipo A δ. O provável neurotransmissor das terminações nervosas do tipo C é a substância P, a qual pode ser encontrada frequentemente nas pontas dorsais da medula espinal, onde se dão as sinapses das fibras do tipo C. A substância P é um neuropeptídeo, e como todos os neuropeptídeos é produzida e destruída lentamente na sinapse. Crê-se que a sua concentração na sinapse aumente durante vários segundos a minutos após o início do estímulo álgico. Após a cessação do estímulo álgico, a substância P persiste por mais vários segundos a minutos. Este fenómeno poderia explicar o aumento progressivo da dor lenta (crónica), com o passar do tempo e a persistência desse tipo de dor, mesmo após a remoção do estímulo álgico.

O destino final feixe paleoespinotalâmico é novamente o encéfalo, terminando de forma bastante difusa no tronco cerebral. Posteriormente, múltiplos neurónios de axónios curtos enviam os sinais da dor para as porções do hipotálamo e outras regiões adjacentes basais do cérebro.

É provável que os impulsos da dor que entrem no tronco cerebral, tálamo e centros inferiores possam causar a perceção consciente da dor. Não quer isto dizer que o córtex cerebral não esteja relacionado com a percepção consciente da dor. O córtex tem um papel importante na interpretação da qualidade da dor, embora a perceção da dor é uma função de centros inferiores.



Sistema de Controlo da Dor no Encéfalo e na Medula Espinal

O graus de reação à dor de cada pessoa varia muito. Isso resulta, parcialmente, da capacidade do próprio encéfalo de controlar o graus de entrada dos sinais da dor no sistema nervoso, pela ativação do sistema de controlo da dor, denominado de sistema de analgesia.

Vários transmissores estão envolvidos no sistema de analgesia, principalmente a encefalina e a serotonina. A serotonina atua sobre um grupo de neurónios localizados na pontas dorsais da medula espinal, promovendo a secreção de encefalina. A encefalina causa a inibição pré-sináptica das fibras aferentes da dor do tipo C e do tipo A δ, provavelmente bloqueando os canais de cálcio nas membranas das terminações nervosas, evitando a libertação do neurotransmissor na sinapse. Este bloqueio parece durar por períodos prolongados, porque após a ativação do sistema de analgesia, essa analgesia dura frequentemente vários minutos ou até mesmo horas.



O Sistema Opiáceo Cerebral – A Endorfinas e Encefalinas

O corpo humano tem a capacidade para produzir substâncias opiáceas, que podem atuar em diferentes áreas do sistema nervoso. Todas elas são produtos do metabolismo de três grandes moléculas proteicas: pró-opiomelanocortina, pró-encefalina e pró-dinorfina. Entre as substâncias opiáceas mais importantes estão a β-endorfina, metencefalina, leu-encefalina e dinorfina. As duas encefalinas são encontradas no sistema de analgesia referido no ponto anterior, e a β-endorfina está presente no hipotálamo e na hipófise. A dinorfina, embora só encontrada em quantidades pequenas no tecido nervoso, é um opiáceo muito potente, com um efeito de cessação da dor 200 vezes maior que a morfina, quando injetada diretamente no local da analgesia.

Acredita-se que o ajustamento quiroprático e o exercício físico possam desencadear cascatas de reação metabólicas, que podem levar ao incremento da presença destas substâncias, algo muito útil no tratamento da dor lenta (crónica).



Inibição da Transmissão da Dor por Sinais Tácteis

A estimulação das grandes fibras sensoriais dos receptores tácteis periféricos deprime a transmissão de sinais da dor, na mesma área do corpo ou, até mesmo em áreas localizadas em segmentos à distância. Esse efeito resulta provavelmente de um tipo de inibição lateral local, e é referenciada em muitos trabalhos de fisiologia como Teoria da Comporta. Isso explica porque manobras simples, como a fricção da pele perto das áreas doloridas, são, muitas vezes, bastante eficazes no alívio da dor. E, e com certa probabilidade, também explica porque razão o uso de certos bálsamos é útil no alívio da dor. Esse mecanismo e a excitação psicogénica simultânea do sistema de analgesia central também são provavelmente a base do alívio da dor por acupunctura.



Sugestões Práticas para Lidar com a Dor

Estas sugestões não são em si qualquer espécie de protocolo terapêutico, nem tornam imprescindível a consulta de um profissional de saúde devidamente qualificado para realizar o diagnóstico clínico.

  • Identificar, controlar ou mesmo eliminar o estímulo que provoca a dor. Frequentemente será necessário consultar vários especialistas para identificar a causa. A causa pode ultrapassar o campo da reabilitação e estar em algo mais grave. Recorde-se do significado de dor referida e dor visceral.

  • Os analgésicos não atuam diretamente sobre o estímulo, mas sim nas vias que transmitem a dor para o encéfalo. Por isso, não devem ser a solução permanente e recorrente.

  • Identificar a causa e os comportamentos que levaram ao fenómeno (o estímulo álgico) torna-se importante, para posterior controlo e eliminação do mesmo. Isto pode passar por modificar hábitos comportamentais e higiénicos, alterar padrões motores errados (tais como a técnica de execução, ou inclusive atividades como a marcha), modificar a alimentação (eliminando alimentos pro-inflamatórios e adicionando alimentos com propriedades anti-inflamatórias), entre outras coisas.

  • Frequentemente a queixa de dor por estímulo mecânico / térmico resulta de uma diminuição do limiar de tolerância por parte destes receptores, provavelmente devido a uma estimulação química concomitante. Não esquecer o tratamento do processo inflamatório e das suas causas, pois este pode estar a exacerbar os sintomas.

  • Melhorar o fluxo sanguíneo ao tecido lesado, como forma de diminuir a intensidade ou até mesmo eliminar a isquemia. Várias técnicas terapêuticas para os tecidos moles e o exercício físico podem ser úteis.

  • No processo inflamatório, procurar diminuir o quanto antes a presença de excitantes álgicos químicos nos tecidos lesados. Para tal, use soluções mais conservadora e, provavelmente, com menores efeitos colaterais, como por exemplo estratégias nutricionais adequadas, quiroprática, ou acupunctura.

  • A dor lenta (crónica) pode persistir mesmo quando é retirado o estímulo álgico. Isso deve-se à persistência no local da substância P. Após o tratamento, o paciente deve ter paciência até que o corpo seja capaz de destruir este neuropeptídeo, responsável pela dor lenta.